Andando pelas ruas daquela cidade nada cosmopolita, resolveu passar por uma agência bancária, que ficava ao lado de sua livraria predileta. Precisaria de dinheiro para fazer mais compras.
Na fila do banco, um senhor à sua frente virou para ela e comentou a demora na espera daquele serviço. Ao observar a mulher, sorriu ao ver aqueles olhos brilhantes. Ela se surpreendeu: reconhecera o rosto que, durante anos, existira apenas em fotos antigas.
Lembrou também do carinho que falava de seu passado, repassado aos seus filhos, que ainda não aceitavam completamente a separação de seus pais.
Este assunto a preocupava, porém, sabia que ambos já eram adultos, e que tinham motivos para entender a decisão tomada meses antes.
A vida tornou-se menos complicada, depois de muitas frustrações, momentos complicados, perdas. O bom humor embebido em sarcasmo era marca registrada de sua existência até ali. O problema dela era justamente não ter a capacidade de apagar rostos, situações, momentos, sentimentos. E, naquele instante de sua vida, a nostalgia não lhe caia mais tão bem. Com isso, pouca coisa ainda conseguiria fazer com que ela ficasse realmente feliz.
Desistiu de sacar o dinheiro, despediu-se do homem do passado e voltou à velha praça. Tinha certeza de que não havia o porquê ter pressa e que o tempo e a paciência, naquela fase de sua vida, se transformariam em um sopro de esperança para ainda viver bem.




